Iniciativa aproximou jovens de profissionais que atuam em setores ainda pouco difundidos entre mulheres, criando um espaço de troca sobre escolhas, desafios e possibilidades de carreira.
Terminais portuários, assim como diversos setores da indústria, ainda são ambientes majoritariamente ocupados por homens. Embora esse cenário venha passando por mudanças, a presença feminina em áreas operacionais, técnicas e de liderança segue como um desafio para o setor.
Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários – Antaq mostram que as mulheres representam 17,8% dos empregos no setor portuário brasileiro, enquanto nas funções operacionais essa participação é de 10%. No Porto Sudeste, a presença feminina cresce a cada ano. A empresa fechou 2025 com 25% de mulheres em seu quadro de profissionais.
Mudanças como essa não acontecem de forma imediata. Elas dependem de acesso, referência, escuta e, muitas vezes, de conversas capazes de apresentar possibilidades que ainda são pouco conhecidas. Foi com esse objetivo que o Porto Sudeste recebeu, na última sexta-feira (27), um grupo de meninas integrantes do Profesp — Programa Forças no Esporte, da Base de Fuzileiros Navais do Rio Meriti (BFNRM), da Marinha do Brasil, em Duque de Caxias/RJ.
O grupo, formado por jovens de 14 a 17 anos, moradoras de comunidades de Duque de Caxias, participou de uma roda de conversa com mulheres de diferentes profissões, trajetórias e faixas etárias. Um encontro voltado à reflexão sobre escolhas profissionais, desafios enfrentados por mulheres no mercado de trabalho e a importância da troca entre gerações.
Durante a roda de conversa, profissionais de diversas áreas – engenharia ambiental, bombeira civil, técnica em mecânica e carreira militar – dividiram experiências sobre suas jornadas. Os relatos ajudaram a apresentar às jovens possibilidades de atuação que, muitas vezes, não fazem parte do repertório inicial de meninas em fase de escolha sobre o futuro.
“Quando a gente pensou esse momento, buscamos trazer o que poderia ser possível para as jovens que ainda estão em fase de escolher a carreira. Nós, como mulheres que já estamos há mais tempo no mercado de trabalho, podemos trazer essas experiências e referências. Que elas possam ser as primeiras nas áreas em que decidirem atuar, sem enxergar isso como um impedimento”, destacou Cintia Santana, analista de responsabilidade social do Porto Sudeste.
A conversa também abordou os obstáculos que muitas mulheres enfrentam para romper ciclos familiares, sociais e profissionais. Em um dos relatos, a engenheira ambiental Daniela Sousa lembrou a própria história. Filha de pais vindos da roça, com o pai operário e a mãe empregada doméstica, ela falou sobre como cada geração pode abrir novos caminhos para a seguinte.
“Meus pais quebraram um ciclo quando saíram da roça e foram para Três Rios/RJ. Foi um grande salto. A partir disso, eu consegui sair de Três Rios e vir para Itaguaí, aproximando-me mais dos grandes centros. Não é uma caminhada fácil. Há muitos obstáculos, principalmente quando se é uma mulher pobre e preta. Momentos como esse, em que podemos ouvir histórias parecidas, de pessoas que quebraram padrões e ciclos seguindo caminhos diferentes, ajudam a mostrar que existem, sim, possibilidades. Às vezes, a trajetória de outra mulher abre uma perspectiva que a gente ainda não tinha enxergado”, comentou.
Mais do que apresentar profissões, o encontro criou um espaço de escuta e identificação. Para as jovens, ouvir mulheres que atuam em áreas ainda pouco difundidas entre o público feminino foi uma oportunidade de conhecer trajetórias reais, com dificuldades, escolhas e conquistas. Para as profissionais, foi também um momento de compartilhar aprendizados e reforçar a importância de mulheres conversarem entre si sobre carreira, oportunidades e desafios.
A iniciativa integrou o projeto Mulheres Extraordinárias, que promove ações voltadas à valorização da presença feminina, ao diálogo sobre equidade e à aproximação entre mulheres de diferentes áreas e gerações.