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Muito além da lama

Em Itaguaí, manguezal mostra que sua força está menos na aparência e mais no que faz pela natureza e pelas pessoas

 

O manguezal raramente disputa espaço com praias de areia clara ou cartões-postais litorâneos. É lama, raiz exposta, cheiro forte e maré em movimento. Mas é nesse ambiente, muitas vezes subestimado, que funciona uma das engrenagens ambientais mais importantes da zona costeira. Conhecido como berçário da vida marinha, ele abriga peixes, crustáceos e moluscos em fases decisivas de seus ciclos de vida. As árvores são adaptadas ao solo, e suas raízes aéreas estabilizam sedimentos, reduzem a força da água, servem de abrigo para pequenos animais e ajudam a formar um ambiente de alta produtividade biológica.

A Ilha da Madeira, em Itaguaí, tem um manguezal de cerca de 230 hectares que protege a linha de costa, abriga espécies, sustenta cadeias produtivas locais e ajuda a manter o equilíbrio de uma região onde convivem comunidades tradicionais, áreas naturais e operações industriais. “O manguezal da região abriga espécies importantes para o equilíbrio costeiro, como caranguejos, siris, ostras, peixes juvenis e aves, além das árvores típicas de mangue. Muitas delas talvez não sejam exclusivas dali, mas dependem desse ambiente para sobreviver”, afirma Bernardo Castello, gerente de meio ambiente do Porto Sudeste.

O manguezal sustenta pesca artesanal e coleta de mariscos, ostras, siris e caranguejos, atividades ligadas à alimentação, à renda e à cultura local. Também atua como uma barreira natural contra erosão, avanço das águas, ressacas e marés mais intensas, um serviço ambiental cada vez mais relevante diante dos efeitos das mudanças climáticas. “Eles ainda têm uma função menos visível. Armazenam carbono no solo e na vegetação. Por isso, preservar esses locais não é apenas uma pauta de biodiversidade, mas uma estratégia climática”, explica Bernardo.

A conservação, no entanto, não depende apenas da existência da vegetação. Sua proteção exige atuação conjunta de poder público, empresas e população. Vizinho a uma área de manguezal, o Porto Sudeste mantém programas de monitoramento com estudos de fitossociologia, para acompanhar a condição das espécies de árvores; avaliação do nível da água, pH e outros parâmetros físico-químicos; análise de componentes inorgânicos, como a presença de metais em pontos do manguezal; monitoramento da qualidade do ar; e acompanhamento da movimentação do terreno. Todas as informações são compartilhadas com o Instituto Estadual do Ambiente – Inea, órgão responsável pelo acompanhamento e fiscalização das ações do terminal.

“Ao longo de quase 11 anos de operação, os resultados do monitoramento permanecem dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Inea. Nossa rotina operacional possui controle de efluentes, de emissões atmosféricas e gestão de resíduos, medidas que também contribuem para reduzir riscos ao ambiente”, acrescenta Bernardo.

O Porto Sudeste também cuida de outra área de manguezal, localizada no Centro Tecnológico do Exército – CTEx, na Reserva Biológica Estadual de Guaratiba. A empresa promoveu o replantio de uma área de 11,4 hectares. “Além do acompanhamento da recuperação da vegetação, também são realizadas ações de conscientização ambiental para orientar visitantes e reduzir impactos que possam comprometer o processo de restauração”, afirma.

A população, por sua vez, também pode ajudar a manter o mangue vivo com ações simples como não jogar lixo, óleo, entulho ou esgoto em rios, canais e áreas de maré; respeitar períodos de reprodução das espécies; denunciar desmatamentos; participar de mutirões de limpeza; e cobrar transparência de empresas e governos.

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